Filha de capitão deu 'carteirada' e policial mandou alterar cena de acidente que matou técnica em Boa Vista, dizem testemunhas
26/03/2026
(Foto: Reprodução) MP pede investigação de PM que não acionou perícia e liberou filha de capitão em acidente
A estudante Amanda Kathryn Monteiro de Souza, de 19 anos, usou a influência do pai para receber tratamento diferenciado após o acidente que matou a técnica em enfermagem Patricia Melo da Silva, de 53 anos na avenida Ville Roy, em Boa Vista, segundo depoimento de testemunhas à Polícia Civil.
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O caso ocorreu na noite do dia 4 de fevereiro. Segundo os depoimentos, a jovem afirmou aos policiais que era "filha de capitão da polícia", o que teria levado a equipe da Polícia Militar a alterar a cena do crime, não acionar a perícia e liberá-la sem o teste do bafômetro.
Duas testemunhas relataram à Polícia Civil ter ouvido Amanda dizer aos policiais: "Meu pai é capitão... sou filha de capitão"
Uma delas disse ainda que, após a frase, os agentes mudaram de postura. "Um policial olhou para a cara do outro e pouco depois um virou de costas e passou a mexer no telefone celular". A testemunha ainda relatou ter visto Amanda fazer uma videochamada para uma tia no local.
Segundo o depoimento, Amanda disse à tia que havia bebido, mas que tinha sido cedo. A testemunha disse que achou que o teste do bafômetro iria ser solicitado naquele momento, mas isso não aconteceu.
O relato é semelhante ao de outra testemunha ouvida pela polícia, que contou ter ouvido Amanda falar ao telefone: "Tia, eu bebi, mas foi pouco e foi cedo" e "o meu pai não quer enviar o dinheiro do guincho".
Policial não achou 'necessário' acionar perícia
A testemunha afirmou ainda que foi o próprio cabo da PM, Fernando Cordeiro Ledo, de 39 anos, responsável pela ocorrência, quem ordenou que uma terceira pessoa desse marcha a ré na caminhonete, para desenganchá-la da moto, o que alterou a posição dos veículos.
No boletim de ocorrência, a guarnição registrou que a perícia não foi acionada porque os veículos já haviam sido removidos do local. Em depoimento, o cabo afirmou que considerou “não ser necessário” acionar a perícia no local.
No entanto, um trecho da investigação mostra que "pelos vídeos e fotos colhidas na cena do acidente, dá para perceber que a motocicleta ficou presa no para choque da S10 envolvida". À época, a PM registrou o caso como "sinistro de trânsito com vítima". Amanda Kathryn ficou em silêncio ao prestar depoimento à Polícia Civil.
Nesta quarta-feira (25), o Ministério Público (MP) pediu a abertura de um inquérito policial militar e de procedimento administrativo para investigar a conduta do cabo da PM.
Amanda Monteiro é filha do capitão da PM Helton John Silva de Souza
Reprodução
Filha de capitão da PM
Amanda é filha do capitão da PM Helton John Silva de Souza, envolvido no assassinato do casal de agricultores Flávia Guilarducci, de 50 anos, e Jânio Bonfim de Souza, de 57, por disputa de terras no município do Cantá.
Nesta terça-feira (24), o governo de Roraima instaurou um Conselho de Justificação para apurar a conduta ética e moral do capitão da PM Helton John. O crime ocorreu em abril de 2025.
O que dizem os citados
Em nota, a defesa de Amanda informou que "a estudante Amanda permaneceu todo tempo no local, visando prestar socorro a vítima, aguardando as determinações dos agentes de segurança". Disse também que "Ela mesmo [Amanda] se prontificou em fazer o exame. Mesmo assim, os vídeos publicados em rede social deixam claro que ela não tinha qualquer sinal de embriaguez."
Procurado, o cabo orientou a reportagem a procurar a assessoria da PM, que informou que a equipe responsável pelo atendimento da ocorrência realizou os levantamentos necessários para o registro do fato ainda no local. Afirmou que ouviu os policiais envolvidos e disponibilizou os esclarecimentos à PC, e ressaltou que a Corregedoria instaurará procedimento para apurar a conduta dos agentes.
Ainda em depoimento, o cabo disse que não solicitou que a Amanda fizesse teste de bafômetro pois não havia suspeita de alcoolemia e o acidente "parecia ser caso de lesão corporal". Ele afirmou que "não recebeu qualquer ligação durante a ocorrência e nem foi contactado por qualquer meio para que desse tratamento diferenciado por ser a condutora filha de militar".
O cabo também tirou foto do cenário do acidente "pois entendeu que mesmo sem perícia poderiam ajudar na compreensão da dinâmica dos fatos". Na ocorrência, ele pegou os dados de Amanda e a liberou. Ele acrescentou que hoje entende que deveria ter acionado a perícia mesmo assim.
A Polícia Civil informou que o inquérito policial "encontra-se em fase final de conclusão e que "ausência de realização de perícia no local do acidente também está sendo analisada no âmbito da investigação."
Motociclista morre após ser atingida por caminhonete na avenida Ville Roy, em Boa Vista
Reprodução
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